“Leia Mulheres” completa 10 anos e discute obra de Lygia Fagundes Telles, no MAPP
Neste sábado (17), às 15h, o Museu de Arte Popular da Paraíba (MAPP), em Campina Grande, recebe uma edição comemorativa do projeto “Leia Mulheres”, que completa 10 anos. A entrada é franca e a obra escolhida para nortear o evento foi “As Meninas”, daquela que é considerada “a dama da literatura brasileira”, Lygia Fagundes Telles [1918-2022].
Através da trajetória das protagonistas Lorena, Lia e Ana Clara, a ideia é discutir um Brasil perpassado por tensões políticas, sociais e afetivas, como explicou Renata Oliveira, que divide a mediação da oportunidade com Vitória Medeiros e Monalisa Ernesto. “Em 2016, ocupamos as bibliotecas, pontos de cultura, livrarias e outros pontos da cidade pela primeira vez. Agora, 118 encontros depois, celebramos uma década de caminhada”, enfatizou.
O primeiro livro debatido pelo “Leia Mulheres” foi o romance “O Sol é Para Todos”, de Harper Lee, por iniciativa da mediadora Samuely Laurentino, que, na época, era professora de balé do Teatro Municipal Severino Cabral, onde ocorreram as primeiras reuniões.
Para Renata, ao longo dos anos, os pontos altos da iniciativa remontam principalmente à presença e ao diálogo direto com as autoras. Ela lembrou da participação da escritora trans Amara Moira. “Conseguimos bancar todas as despesas dela, passagem de avião de São Paulo para cá, com uma vaquinha e uma rifa que fizemos”, destacou. Dentro da trajetória do “Leia Mulheres”, ela trouxe à memória, ainda, as escritoras Vanessa Passos, Truduá Dorrico, Márcia Kambeba e Cibele Laurentino, entre outras. “Tive o privilégio também de ter um livro meu, lido e comentado, ‘Tirocínio’, que saiu em 2024”, contou.

Teimosia como receita de longevidade
Em parte, Renata credita à teimosia dela a longevidade do projeto em Campina. “É uma característica minha, embora várias vezes eu tenha pensado em desistir, devido às barreiras que a gente enfrenta, de um ou outro encontro, que não foi quase ninguém, que foram duas, três, quatro pessoas… Em compensação, há ocasiões em que recebemos um público maior do que o esperado e buscamos cadeiras para dar conta. Logo, tem a ver com persistência e paixão, porque sou apaixonada e quero fazer o que for possível para manter o Leia Mulheres”, afirmou.
Outro aspecto que colabora para o projeto seguir em frente é o senso de coletividade, de acordo com ela. “Mesmo as participantes que não são mediadoras, engajam-se, são comprometidas e responsáveis com o grupo, dando ‘liga’ a essa continuidade. Além disso, fomos adquirindo bastante visibilidade nesses 10 anos, de modo que há sempre gente nova chegando… Tem gente que está desde o começo, há quem participe há oito anos, ou há meses, e pessoas que chegarão agora nesse próximo encontro. Tudo se desenvolve em uma dinâmica de acolhimento e partilha, acredito que é esse o combustível principal”, destacou.
O MAPP e o Leia Mulheres
Renata considera a parceria com o Museu de Arte Popular da Paraíba muito exitosa. “Uma das premissas do projeto é ser aberto e foi assim que surgiu a ideia de falar com o professor Pereira, diretor do MAPP, e pedir para fazer os encontros lá. É um lugar excelente e a proposta é interessante porque às vezes há pessoas passando, fazendo a visitação das exposições, e elas param, ficam escutando, a gente informa que é um clube de leitura, pergunta se querem participar. A visita continua e depois elas sentam, entram na conversa e voltam para outras edições”, disse.
Outra parceria celebrada pelo projeto é com a Feira Literária Internacional de Campina Grande (Flic). “Nossa reunião de novembro é sempre especial, pois ocorre inserida na programação da Flic, aumentando o alcance das ações do grupo e fortalecendo o Leia, no cenário literário da cidade”, informou.
Mais Leias
O Leia Mulheres de Campina Grande também inspirou em algumas participantes o desejo de levar a experiência para suas cidades. “Nesses casos, passamos o contato da Juliana Leuenroth, que é a coordenadora nacional, explicamos como mobilizar as pessoas, orientamos quanto ao local que podem escolher, cronograma… Transmitimos todas as informações quanto a essas questões mais práticas, para que dê certo”, explanou Renata.
Foi assim que o grupo estimulou e mediou o nascimento de diversos clubes, como o Leia Mulheres Areia e o Leia Mulheres Mari, na Paraíba; o Leia Mulheres Nazaré da Mata, em Pernambuco; o Leia Mulheres Glória, em Sergipe; e até o Leia Mulheres Santiago, no Chile, criado a partir da participação de uma visitante que conheceu o projeto durante uma viagem ao Brasil. “De certa forma, o grupo se tornou ‘madrinha’ dessas iniciativas. Alguns desses clubes, seguem em plena atividade, outros tiveram seus encontros interrompidos, principalmente pelo caráter voluntário da mediação. Assim, às vezes, uma questão individual, na vida de uma mediadora, impossibilita a continuidade, por isso é tão importante que as ações não estejam associadas exclusivamente a uma pessoa”, endossou. Atualmente, o grupo também acompanha o processo de criação do Leia Mulheres Caruaru.
Próximos passos do Leia Mulheres, em Campina
Para além dos encontros, o Leia Mulheres foi construindo uma programação cultural mais ampla, surgida ao longo dos anos. Entre essas iniciativas, destacam-se o “Festival Viva Mulheres”, realizado no mês de março, em alusão ao Dia Internacional da Mulher, e o “Sarau Mulheres de Peito”, promovido em outubro, trazendo a conscientização sobre a prevenção do câncer de mama.
“Esses eventos reuniam artistas locais, artesãs e pequenas empreendedoras. De forma voluntária, cantoras, expositoras de artesanato, bijuterias, bolsas e outros produtos compunham um dia inteiro de programação, que também incluía brechós, trocas de livros, LPs e uma área dedicada à alimentação. As edições ocorreram entre 2017 e 2019. Em 2020, a pandemia interrompeu essa dinâmica e dificultou a articulação para que as atividades prosseguissem, mas permanece viva a nossa intenção de retomá-las, embora tenhamos a consciência de que enfrentaremos desafios como a ausência de financiamento e de apoio logístico”, explicou Renata.
Outro empreendimento cultural que integra os planos do coletivo é o “Assista Mulheres”, iniciativa que teve algumas edições e objetivava unir literatura e audiovisual. “A proposta era agregar a discussão da obra literária à exibição de filmes dirigidos por mulheres, preferencialmente em um eixo temático similar à leitura do mês. Por enquanto, o projeto está suspenso, mas segue como uma ideia a ser desenvolvida”, detalhou.
Renata enfatizou, ainda, que o trabalho do Leia Mulheres é contínuo também no sentido de atuar em várias frentes. “Mantemos de forma constante nosso campo de ação, por meio de palestras em escolas e universidades, participações em rádios, TVs e outros espaços da mídia. Apresentamos o Clube, compartilhamos leituras e promovemos reflexões que abrangem a literatura no contexto do enfrentamento de problemas sociais, a exemplo das desigualdades de gênero, racismo e homofobia”, revelou.
Texto: Oziella Inocêncio
Foto: Divulgação
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